Tuesday, January 11, 2005

Friday, October 22, 2004

Eu sei que atrás desse universo de aparência, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que eu não suporto ouvir e dela não me conformo. Eu acredito em tudo, mas quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado,pelas tuas cicatrizes, pelas tuas lacunas todas, minha vida! Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas, eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste. As tuas roupas sujas, é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria. Mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência. Até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo, quando, sozinha, bordo mais uma toalha de fim de semana.
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis. Amo o teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma pra alma e mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defenda.
Quando digo que te amo é mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.
(in: Maria Bethânia, Maricotinha)

Monday, October 18, 2004

Elegia 1
Bia Campello

Mastiga minha alma este silêncio rouco
do aparelho cinza
O vazio que aperta o centro de meu peito
e se reflete na ausência
do brilho dos meus cabelos.
Tortura minha calma a necessidade
de escolher o estágio de minha sanidade
A preferência da tua falta
à decisão de nossa natureza.

Nessa tarde que foi muda e rotineira, desejei que a morte houvesse batido nossa porta e escolhesse aleatoriamente um de nós dois. Desejei que um sopro de vento levasse um de nós para outras paragens por tempo indeterminado. Desejei, profundamente desejei, que uma sombra aparecesse e rompesse com calma nossos laços, embalsamando as cicatrizes e murmurando uma canção de ninar. Mas hoje está difícil acreditar em Deus, não há filho de Zéfiro forte o suficiente para carregar meu corpo obeso até outras nações e somos muito jovens paranos desnudarmos do corpo para o espelho da eternidade. Nesta noite passei meu tempo entretendo a mente com palavras, esfregando os olhos secos e penando o medo do presente e das incertezas do futuro. Não ouvi os ecos da minha solidão e aspirei a não ter autonomia ou a alcançar algum oráculo misterioso e infalível. Não consigo mais me entregar àquilo que não raciocino. E a loucura me torna sua mais querida visitante.

Aire
Antonio Carlos Secchin

Áspera guitarra rasga o ar da praça.
Há um pássaro parado na garganta de Carmen.

Embarca o pássaro na lábia do acaso.
Ácido cenário de pátios e compassos.

Passam rápidos máscaras e presságios.
Espada e Espanha, abraço incendiário,

cantam alto as artes do espetáculo:
lançar-se à brasa e matar-se no salto.
Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? em que lugar? E se foi através da energia de Deus - como começou? será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada.
(Clarice Lispector, Água Viva)

Thursday, October 14, 2004

Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar opresente que pela sua própria natureza me é interdito:o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor - pela límpida abstração de estrela do que se sente - capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes - e oque se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece fora do corpo, faiscante no alto, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.
(Clarice Lispector, Água Viva)

Saturday, October 09, 2004

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... De desencanto
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Thursday, October 07, 2004

Passeio
Hilda Hilst

1

Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.

E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.

Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.

(retirado de http://www.angelfire.com/ri/casadosol/passeio.html)